Entre anjos e demônios nasce o homem
(Joceane Priamo)
.
É no palco mais íntimo da humanidade que a constante dança entre o sublime e o sombrio acontece. Não nascemos puros nem inteiramente corrompidos, mas sim como um campo de batalha onde as forças da luz e das trevas travam seu eterno embate. Essa dualidade é o que nos define, o que nos torna complexos e, por vezes, paradoxais.
Em nossa essência, carregamos a centelha divina, a capacidade para a compaixão, a bondade e a busca pela verdade – qualidades angélicas. Contudo, também reconhecemos as sombras que habitam em nós: o egoísmo, a raiva, o medo e a ânsia por poder que flertam com o abismo demoníaco. O homem não é um lado ou outro, mas a síntese, a união desses extremos.
É nessa tensão que reside nossa força e nossa fragilidade. A luta constante para ascender rumo ao que é nobre, enquanto resistimos à queda rumo ao abjeto, molda nosso caráter, nossas escolhas e, em última instância, nosso destino. A sabedoria não está em negar uma das partes, mas em reconhecer sua presença, compreender sua influência e escolher conscientemente o caminho da luz, mesmo diante das mais sombrias tentações. Assim, no epicentro dessa dualidade, o ser humano se constrói, se reinventa e encontra seu verdadeiro significado.
Alguns teóricos argumentam que a maldade é uma característica inata, uma propensão para o egoísmo ou até agressividade que reside desde o nascimento. Esta visão sugere que as nossas tendências mais sombrias são uma parte fundamental da nossa biologia, exigindo que a sociedade atue como um mecanismo de controle para nos manter na ordem.
Por outro lado, muitos defendem que nascemos como “tábuas rasas”, moldados pelas nossas experiências. Nesta ótica, é o ambiente – a educação, as interações sociais, as circunstâncias económicas e culturais – que molda o nosso carácter. Um ambiente promotor de valores positivos pode fomentar a bondade, enquanto um contexto de privação ou violência pode levar à corrupção e ao mal.
A verdade é que não somos entidades puras, nem manifestações incontestáveis do mal; somos, em nossa mais profunda verdade, um campo de batalha constante. A cada amanhecer, o homem se depara com a escolha: fazer o bem ou ser mal? É no equilíbrio precário entre esses extremos que encontramos nossa liberdade e responsabilidade. Diariamente, os anseios de luz duelam com as sombras mais profundas e o nosso maior desafio de sobrevivência não é a ausência do mal, mas a persistência da bondade, defender a verdade quando a mentira se propaga com facilidade.
.
Joceane Priamo nasceu em Francisco Beltrão-PR, em 23 de maio de 1988. É formada em Letras Português e Literatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e Pedagogia pela Faculdade Campos Elíseos (FCE), pós-graduada em Docência no Ensino Superior, Antropologia, Educação Especial e Intelectual.
Em março de 2021, lançou seu primeiro livro, Francisco Beltrão entre Versos e Sonhos. Em 2024 lançou a coleção infantil As aventuras de Chiquinho Beltrão e sua turma. Participa da coordenação da Via Poiesis e como membro do Centro de Letras de Francisco Beltrão, é professora, escritora, poetisa e cronista.
