Planeta água: entre a abundância global e a escassez do cotidiano
Especial – Dia Mundial da Água
Por Ivonete Terezinha Tremea Plein
A Terra é conhecida como o Planeta Água. Vista de longe, a imagem azulada sugere abundância, equilíbrio e segurança. No entanto, essa percepção não resiste a uma análise mais atenta da realidade. Embora cerca de dois terços da superfície do planeta sejam cobertos por água, a maior parte desse volume não está disponível para o consumo humano. Aproximadamente 98% da água existente na Terra é salgada e, dos 2% de água doce, apenas uma fração mínima encontra-se acessível em rios, lagos e reservatórios superficiais.
Essa contradição entre abundância aparente e escassez real está no centro da crise hídrica contemporânea. Trata-se de uma crise que não pode ser explicada apenas por fatores naturais, mas que está profundamente relacionada às formas de organização da sociedade, aos modelos de desenvolvimento e à maneira como os territórios são apropriados e geridos. Como lembra Milton Santos, cada lugar é, simultaneamente, objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo de forma dialética. No caso da água, decisões tomadas em escalas globais produzem impactos diretos e concretos no cotidiano das populações (Santos, 2008).
Segundo dados das Nações Unidas, cerca de 30% da população mundial não tem acesso à água potável em casa e aproximadamente 60% carecem de saneamento seguro (OMS; UNICEF, 2019). Esses números revelam que a crise da água é, antes de tudo, uma crise social. Afeta de maneira desigual diferentes regiões do planeta, penalizando sobretudo populações rurais, crianças, mulheres e comunidades expostas a conflitos ou à pobreza estrutural.
No Brasil, a situação apresenta nuances próprias
O país detém cerca de 12% da água doce do planeta, o que poderia sugerir uma condição privilegiada. No entanto, essa disponibilidade não se traduz em acesso equitativo. A distribuição dos recursos hídricos é profundamente desigual: enquanto a região Norte concentra grande parte da água disponível, o Sudeste e o Nordeste, onde vive a maioria da população, dispõem de menos de 10% desse volume (SNIS, 2021). Além disso, a água doce atende não apenas ao consumo humano, mas também à agricultura, à indústria e à produção de energia, intensificando disputas e conflitos em períodos de escassez.
Entre 1990 e 2020, o Brasil perdeu 15,7% da sua superfície de água. Embora algumas regiões apresentem movimentos pontuais de recuperação, a tendência geral aponta para instabilidade e redução, fortemente associadas ao desmatamento, às mudanças no uso do solo e às alterações climáticas (MapBiomas, 2021).
Outro aspecto preocupante é o desperdício
É preocupante o índice de perda na distribuição de água que, no Brasil, foi de 40,1% em 2020 e, no Paraná, de 34%. Essa perda constitui a diferença entre a água produzida ou tratada e a água efetivamente consumida ou cobrada, refletindo ligações clandestinas, submedição e vazamentos (SNIS, 2021). Isso significa que uma parcela expressiva da água tratada sequer chega ao consumidor final, ampliando os efeitos da escassez e elevando os custos do sistema.
O consumo médio per capita também revela desafios importantes. Em 2020, o consumo médio brasileiro foi de 152,1 litros por habitante/dia, enquanto no Paraná foi de 139,3 litros. A redução observada em relação a anos anteriores pode indicar maior conscientização, mas também reflete períodos de crise hídrica, quando a disponibilidade diminui e o consumo é forçado a cair (SNIS, 2021).
Diante da escassez crescente das águas superficiais, as águas subterrâneas passaram a ocupar um papel estratégico no abastecimento humano. Estima-se que elas representem aproximadamente 99% de toda a água doce líquida disponível no planeta e já respondem por cerca de metade da água utilizada para consumo doméstico no mundo (UNESCO, 2022). No Brasil, essa dependência cresce especialmente nas áreas rurais, onde o acesso às redes públicas de abastecimento é limitado.
Entre 2017 e 2020, as secas e estiagens afetaram cerca de 89 milhões de pessoas no país, número significativamente superior ao de pessoas impactadas por cheias no mesmo período (ANA, 2022). No estado do Paraná, os anos de 2020 e 2021 foram marcados por uma das mais severas crises hídricas da história recente, o que impulsionou políticas públicas voltadas à perfuração de poços e ao uso de aquíferos como alternativa de abastecimento.
A água subterrânea, embora muitas vezes considerada naturalmente pura, não está isenta de riscos. A qualidade dessa água é controlada por fatores geológicos e climáticos, mas também sofre forte influência das atividades humanas. A infiltração de fertilizantes, defensivos agrícolas, vazamentos de tanques e falhas estruturais em poços pode comprometer a potabilidade da água subterrânea de forma praticamente irreversível (Paraná, 2010; UNESCO, 2022).
Apesar da crescente dependência desse recurso, o monitoramento das águas subterrâneas no Brasil ainda é incipiente quando comparado ao das águas superficiais. A Rede Integrada de Monitoramento das Águas Subterrâneas conta com número reduzido de pontos de observação frente à dimensão territorial do país, o que limita a capacidade de planejamento e de prevenção de riscos (ANA, 2022).
Nas áreas rurais, o abastecimento ocorre majoritariamente por meio das Soluções Alternativas Coletivas de Abastecimento de Água, os chamados SAC. Esses sistemas, geralmente geridos por associações comunitárias, desempenham papel fundamental no acesso à água, mas enfrentam desafios relacionados à manutenção, à cloração adequada, à realização de análises periódicas e ao registro sistemático de dados. A fragilidade dos cadastros e do monitoramento compromete a formulação de políticas públicas e a segurança do consumo humano.
A água ocupa posição central na Agenda 2030 das Nações Unidas, expressa no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável nº 6, que propõe garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos. A água é transversal a todos os pilares do desenvolvimento sustentável, relacionando-se diretamente com saúde, segurança alimentar, energia, igualdade social e justiça ambiental (Nações Unidas, 2022).
No Dia Mundial da Água de 2026, a reflexão que se impõe vai além da quantidade disponível. Trata-se de repensar os modos de gestão, reduzir perdas, proteger mananciais e aquíferos, fortalecer o monitoramento e reconhecer que a água é um bem comum, finito e essencial à vida. Entre a abundância global e a escassez do cotidiano, o desafio é transformar conhecimento e dados em ações concretas, capazes de garantir água em quantidade e qualidade para as presentes e futuras gerações.
Nota: A autora disponibilizou um curso gratuito para quem tem interesse no tema: https://symp.la/wmafnk-formulario
Ivonete Terezinha Tremea Plein
Técnica em Assuntos Educacionais – UTFPR
Doutora em Geografia – Unioeste
