As moscas tontas na janela
(Joceane Priamo)
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Há algo de profundamente trágico e, ao mesmo tempo, ridiculamente humano no espetáculo de uma mosca tonta contra a vidraça. Ela zune, bate, recua e volta a investir com uma teimosia suicida. Do lado de fora, o jardim; do lado de dentro, a ilusão de que a transparência é o caminho. Ela tem asas para cruzar continentes, mas escolhe gastar toda a sua energia contra um limite que ela não compreende, mas que a detém.
Nós, que observamos com um ar de superioridade, raramente percebemos que também temos nossas vidraças invisíveis. Quantas vezes nos tornamos essas “moscas tontas” em nossas próprias vidas? Ficamos presos em círculos viciosos, zunindo as mesmas reclamações, batendo a cabeça nos mesmos erros e insistindo em portas que, embora pareçam abertas pela transparência do hábito, estão trancadas pela nossa própria insistência. É a pessoa que permanece no emprego que a consome, no relacionamento que a anula, ou na mágoa que a paralisa, acreditando que, se bater com mais força, o vidro finalmente cederá.
O problema não é a falta de asas. Temos sonhos, talentos e uma vontade latente de voar para o vasto jardim da existência. O impasse é a fixação no obstáculo. A mosca tonta não olha para os lados; ela não percebe que, a poucos centímetros dali, existe uma fresta, uma porta entreaberta, um caminho novo. Ela acredita que a persistência cega é a única virtude, ignorando que, às vezes, a saída não está em frente, mas em um recuo estratégico.
Voar para a vida exige mais do que bater asas; exige notar o vidro. Exige entender que o cansaço não é troféu e que voar em círculos, por mais veloz que seja o movimento, ainda é estar parado. Enquanto não aprendermos a desviar o olhar do que nos impede, continuaremos sendo prisioneiros do brilho do que poderia ter sido, cansados demais para perceber que o céu ainda está lá fora, esperando por quem decide parar de bater a cabeça e começa, finalmente, a navegar. Para sair dessa prisão, é preciso trocar a esperança passiva pela ação decisiva.
Muitas vezes, o que falta não é mais esforço, mas uma mudança de direção. Se você deu cem passos e o centésimo primeiro nunca chega, talvez você não esteja em um corredor, mas em um círculo. Sair de um círculo exige abandonar o investimento feito nele. É o que chamamos de queimar os navios. Para buscar uma saída real, você precisa aceitar que aqueles 100 passos dados no círculo não te levaram a lugar nenhum, exceto ao cansaço.
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Joceane Priamo nasceu em Francisco Beltrão-PR, em 23 de maio de 1988. É formada em Letras Português e Literatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e Pedagogia pela Faculdade Campos Elíseos (FCE), pós-graduada em Docência no Ensino Superior, Antropologia, Educação Especial e Intelectual.
Em março de 2021, lançou seu primeiro livro, Francisco Beltrão entre Versos e Sonhos. Em 2024 lançou a coleção infantil As aventuras de Chiquinho Beltrão e sua turma. Participa da coordenação da Via Poiesis e como membro do Centro de Letras de Francisco Beltrão, é professora, escritora, poetisa e cronista.
