O amor e a dor andam de mãos dadas
(Joceane Priamo)
.
O enlace e o luto não são opostos, mas faces da mesma moeda que rege as relações humanas. Compreender que o fim de um relacionamento ou o rompimento de um laço geram sofrimento não deve nos fechar para o mundo, mas nos lembrar da impermanência de tudo o que é vivo.
No instante em que abrimos o coração para alguém, seja no calor de um romance, na calmaria de uma amizade ou no sangue dos laços familiares, assinamos, em silêncio, um pacto de risco com a vulnerabilidade. Amar não é um conforto morno; é uma força motriz que exige a verdadeira coragem. Não existe “amor com seguro total”. Entregar o afeto é oferecer ao outro a chave do nosso santuário, confiando na sua delicadeza, ainda que saibamos que a vida e o tempo trazem separações para além das nossas intenções. Quem tenta se blindar do sofrimento, erguendo muralhas altas ao redor do peito, acaba por se encarcerar contra a própria luz da alegria e da conexão real. O preço de não se ferir é, afinal, não viver.
Quando as lágrimas denunciam o fim de uma história, a distância de um amigo ou o adeus a quem partiu, estamos apenas testemunhando a grandeza do valor que aquela presença tinha para nós. O luto, em sua essência, nada mais é do que o amor que perdeu seu endereço físico; é um afeto que, não tendo mais onde pousar no mundo exterior, recolhe-se para dentro, transmutando-se em um altar de memórias e gratidão.
Essa dor que muitas vezes nos rasga nasce da nossa resistência ao fluxo da vida. Queremos eternizar os instantes de sol, mas a existência é feita de estações: ciclos se fecham porque as pessoas mudam e a partida nos alcança porque somos seres biológicos e finitos. Aceitar que o amor e a perda caminham de mãos dadas é um convite para habitar o presente com urgência e beleza, amando o outro na plenitude do hoje.
Por isso, o grande desafio não é desviar do sofrimento, mas cultivar a resiliência para atravessá-lo, sabendo que a ferida haverá de se tornar cicatriz e que, no tempo certo, o solo do coração voltará a ser fértil para o afeto. Amar é, acima de tudo, um ato de profunda rebeldia contra o vazio. É a decisão consciente de que a beleza do encontro supera o medo da ausência, pois a dor da perda machuca por uma estação, mas a ausência de amor empobrece a alma para sempre.
.
Joceane Priamo nasceu em Francisco Beltrão-PR, em 23 de maio de 1988. É formada em Letras Português e Literatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e Pedagogia pela Faculdade Campos Elíseos (FCE), pós-graduada em Docência no Ensino Superior, Antropologia, Educação Especial e Intelectual.
Em março de 2021, lançou seu primeiro livro, Francisco Beltrão entre Versos e Sonhos. Em 2024 lançou a coleção infantil As aventuras de Chiquinho Beltrão e sua turma. Participa da coordenação da Via Poiesis e como membro do Centro de Letras de Francisco Beltrão, é professora, escritora, poetisa e cronista.
