Quantas mudanças fizemos na vida?
(Joceane Priamo)
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Mudar não é um acontecimento isolado, mas o próprio ritmo da existência. Se olharmos para trás, para cada ciclo que se encerrou e para cada outro que se iniciou, talvez percamos a conta de quantas metamorfoses já atravessamos. Mudam-se os endereços, as roupas no armário, o reflexo no espelho e, inevitavelmente, as pessoas que caminham ao nosso lado.
Mudar de cidade é reaprender o caminho do cotidiano, trocar sons familiares por silêncios desconhecidos e aceitar a estranha sensação de que os lugares onde fomos felizes continuam existindo mesmo sem a nossa presença. Mudar de amigos também carrega uma dor silenciosa: pessoas que um dia sabiam tanto sobre nós tornam-se, aos poucos, lembranças afetuosas. O carinho permanece, mas a convivência se perde entre a distância e o tempo.
Até mesmo uma mudança no visual pode revelar muito mais do que uma simples vontade de transformar a aparência. Muitas vezes, é a tentativa de traduzir por fora aquilo que já se transformou por dentro, deixando para trás uma imagem que já não corresponde à pessoa que nos tornamos.
Nesse movimento constante de seguir em frente, existe também um descarte inevitável. Quantas coisas deixamos pelo caminho? Jogamos fora caixas esquecidas, papéis amarelados, roupas que já não usamos e objetos que perderam o sentido. Mas também abandonamos certezas que pareciam inabaláveis, expectativas que um dia alimentamos, a ingenuidade de alguns laços e até partes inteiras de quem fomos.
Reinventar-se exige um luto silencioso. Afinal, para que o novo encontre espaço, o velho precisa, de alguma forma, abrir mão do seu lugar. Nem tudo o que deixamos para trás foi ruim; algumas coisas simplesmente cumpriram seu propósito e já não conseguem nos acompanhar na próxima etapa. Encarar o novo é equilibrar-se na corda bamba entre o medo do desconhecido e a coragem de descobrir o que ainda não conhecemos. É sentir aquele frio na barriga diante de um caminho sem mapas, pisando em um solo onde ainda não existem raízes. E talvez seja justamente nessa vulnerabilidade que esteja a beleza de se refazer.
Mudar não significa apagar a nossa história, negar o que fomos ou abandonar tudo aquilo que um dia nos fez felizes. Significa reconhecer que cada fase teve seu tempo, seu aprendizado e sua importância. Por isso, talvez a melhor pergunta não seja apenas quantas mudanças fizemos na vida, mas quantas vezes tivemos coragem de nos reconstruir depois delas. Porque viver também é isso: despedir-se de algumas versões de nós mesmos, agradecer pelo que elas nos ensinaram e seguir adiante, permitindo que a vida nos apresente, pouco a pouco, quem ainda podemos ser.
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Joceane Priamo nasceu em Francisco Beltrão-PR, em 23 de maio de 1988. É formada em Letras Português e Literatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e Pedagogia pela Faculdade Campos Elíseos (FCE), pós-graduada em Docência no Ensino Superior, Antropologia, Educação Especial e Intelectual.
Em março de 2021, lançou seu primeiro livro, Francisco Beltrão entre Versos e Sonhos. Em 2024 lançou a coleção infantil As aventuras de Chiquinho Beltrão e sua turma. Participa da coordenação da Via Poiesis e como membro do Centro de Letras de Francisco Beltrão, é professora, escritora, poetisa e cronista.
