Cuidemos das relações!
Dom Edgar Xavier Ertl – Diocese de Palmas-Francisco Beltrão
A arte das relações talvez seja uma das mais desafiadoras da humanidade. Relacionar-se saudavelmente nunca foi simples e fácil para uma considerada faixa de pessoas. Não quero ser juiz ou ocupar este espaço para julgar os relacionamentos dos outros. Todavia, confesso que os rancores, as raivas, vinganças estão em alta. Estes adjetivos até ganham seguidores e compartilhamento. Se alguém está ofendendo raivosamente o meu rival, pode ser que estou apoiando e me sentindo representado. Tenho observado como as propagandas políticas veiculadas gratuitamente nos meios de comunicação do Brasil têm sido palcos para o desfile de narrativas de desclassificação do oponente e discursos poluídos de verbos, frases e sentenças condenatória. Sintetizando. Em tempos de discursos agressivos, que se multiplicam nas redes sociais, sobretudo, somos tentados a percorrer estes mesmos caminhos, a fim de alcançar poder, fama e bem-estar econômico, político e religioso aplaudindo as imbecilidades que ganham forças e seguidores. Rancor e ódio são obstáculos às relações, ao perdão e à misericórdia.
Jesus Cristo oferece-nos um caminho para curar nossas relações ofendidas e ultrajadas. O Apóstolo Pedro interroga o mestre Jesus: “Senhor, ‘quantas vezes’ perdoar se meu irmão pecar contra mim. Até sete vezes?”. Sete, na Bíblia, é um número que indica completude e, por isso, Pedro é muito generoso nas suposições de sua pergunta. A pergunta recebe uma resposta articulada pelo Mestre na excelência e na prática do perdão: “Não te digo perdoar até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (cf. Mateus 18,21-35). Perdoar sempre, por toda a vida, caro Pedro e meus seguidores, pede-nos o Senhor. Jesus prospecta a exigência de um perdão total e definitivo. Jesus amplia, de certa forma, o imperativo do perdão até o infinito. Perdoar é um dos maiores desafios da vida cristã e da vida em todas as dimensões. Pela proposta de Jesus, somos chamados a deixar de lado a lógica da cobrança e do ressentimento e a construir relações marcadas pelo perdão, pela reconciliação e pela compaixão. É isso que pedimos na Oração do Senhor, o Pai-nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido”.
Papa Francisco
Segundo Francisco, “cada um de nós, de fato, é um ‘perdoado’ ou ‘perdoada’: não nos esqueçamos disso, somos perdoados, Deus deu a vida por nós e de modo algum podemos compensar a sua misericórdia, que Ele nunca retira do coração. Entretanto, correspondendo à sua gratuidade, ou seja, perdoando-nos uns aos outros, podemos dar testemunho dele, semeando vida nova ao nosso redor. Fora do perdão não há esperança, fora do perdão não há paz. O perdão é o oxigênio que purifica o ar poluído pelo ódio. O perdão é o antídoto que cura os venenos do rancor, é o caminho para desativar a raiva e curar tantas doenças do coração que contaminam a sociedade”.
Papa Leão 14
O Papa Leão 14, na Encíclica Magnifica Humanitas, escreveu: “Cuidemos das relações! Numa época que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas. A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade. Convido a preservar os lugares e os momentos em que a presença física continua a ser decisiva: a mesa partilhada, a comunidade cristã que se reúne, a visita a quem está só, o serviço aos pobres. São sinais de uma humanidade que continua a acreditar que cada corpo é templo do Espírito e casa de Deus, e é precisamente esta aliança entre glória e fragilidade que se torna o critério para avaliar os modelos antropológicos propostos pela cultura atual” (MH n. 239). Cuidemo-nos!
Diocese de Palmas Francisco Beltrão
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