Seremos para sempre filhos
Joceane Priamo
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Nem todos os que pisam esta terra escolherão / ou poderão gerar uma nova vida. Nem todos serão pais ou mães. Mas, absolutamente todos nós, sem exceção, somos filhos de alguém. A vida nos chega por meio de um homem e de uma mulher. Essa é a ponte, inevitável e essencial, do nosso existir. Chegamos através de histórias diversas, por caminhos que nem sempre conseguimos compreender, aceitar ou até mesmo conhecer.
Há quem nasça de laços tecidos com amor e cumplicidade. Há quem venha de uniões que se desfizeram, de encontros fugazes, de escolhas dolorosas, de histórias marcadas pela ausência, pela traição, pela violência ou por profundas feridas. Ainda assim, a vida não julga a história de quem a gerou. Ela simplesmente flui.
Olhar para trás e dar um lugar aos nossos pais no coração não significa aprovar suas escolhas, justificar seus erros ou apagar as feridas que ficaram. Significa reconhecer um fato essencial: por meio deles, a vida chegou até nós. O afeto, a presença, o cuidado, as ausências e tudo aquilo que aconteceu depois pertencem à história de cada família. Mas a vida, em sua essência, veio primeiro. E, diante dela, podemos reconhecer o que recebemos sem precisar negar aquilo que nos feriu.
Quando dizemos “sim” aos pais que tivemos, exatamente como foram, ou como puderam ser, pouco a pouco deixamos de lutar contra a nossa própria origem. Paramos de exigir deles aquilo que talvez não tivessem condições de oferecer e começamos a tomar, com respeito, a força da vida que atravessou suas histórias e chegou até nós. Não precisamos carregar suas escolhas. Não precisamos repetir seus destinos. Podemos honrar a origem e, ainda assim, seguir por um caminho diferente.
E talvez exista uma profunda liberdade em simplesmente ocupar esse lugar: reconhecer de onde viemos, acolher a história possível, deixar com os pais aquilo que pertence a eles e tomar para nós aquilo que é nosso — a vida.
Porque, quando fazemos as pazes com a nossa origem, não mudamos o passado. Mas podemos mudar a maneira como caminhamos a partir dele. E é quando deixamos de guerrear com aquilo que nos trouxe até aqui que encontramos espaço para construir, enfim, o nosso próprio caminho.
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Joceane Priamo nasceu em Francisco Beltrão-PR, em 23 de maio de 1988. É formada em Letras Português e Literatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e Pedagogia pela Faculdade Campos Elíseos (FCE), pós-graduada em Docência no Ensino Superior, Antropologia, Educação Especial e Intelectual.
Em março de 2021, lançou seu primeiro livro, Francisco Beltrão entre Versos e Sonhos. Em 2024 lançou a coleção infantil As aventuras de Chiquinho Beltrão e sua turma. Participa da coordenação da Via Poiesis e como membro do Centro de Letras de Francisco Beltrão, é professora, escritora, poetisa e cronista.
