DIVAGAÇÕES DA SOLIDÃO
(Cleusa Piovesan)
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São os raios da manhã que me guiam e me fazem perseverar em busca de emoções que nunca morrem e de outras que ainda nascerão, inscritas na trajetória de minha vida e almejadas por meu coração trigueiro, incomodado com o marasmo das relações rotineiras e com a falta de perspectivas que vejo no olhar inquieto de quem me rodeia.
O sabor de aventura está em meu paladar, ávido por mais uma porção de loucuras, com grandes doses de bom humor, misturadas com a sensação de perigo e com a insegurança, que faz agitar a adrenalina de meu corpo e acelerar o metabolismo de meu processo fisiológico.
Insanos são os desejos ocultos no emaranhado de meus neurônios, interligados por conexões desconexas e por um complexo sistema de ideias mirabolantes que não se encaixam em um padrão pré-estabelecido e insistem em andar na rota oposta.
Tento adequar-me, mas não consigo ser hipócrita, e entro em rota de colisão, numa tentativa suicida de ser entendido e de entender o processo social que rotula e exclui, que aliena e adestra, e que não tem racionalidade, apenas superficialidade. E as respostas morrem dentro de mim, porque não há respostas, há vivências, há experiências, que transformam cada um no se humano, ou desumano, que é.
E, entre noites de insônia, madrugadas agonizantes e amanheceres de perspectivas, passo os dias a conjecturar sobre a evolução humana, que transformou a vida em um sistema, no qual somos peças de uma engrenagem falha, com problemas constantes de relacionamento.
Somos marionetes controladas por um fio invisível, chamado por Rousseau de “contrato social”, o qual não pede nossa concordância, mas exige que o adotemos, para que sejamos aceitos, no seio de uma sociedade que nos amamenta como uma ama de leite, não como uma mãe; sem carinho, sem atenção, ou proteção, apenas por obrigação. Sugamos de um leite azedo e vencido, que coalha qualquer tentativa de rebeldia, que aniquila o pensamento, que atrofia as ideias e que nos corrompe livremente, e que nos impõe suas regras e nos dita suas leis.
Vivemos em um regime de prisão semiaberto, dormimos na ignorância e passamos os dias na inércia. Pensar já não nos pertence, porque daí, incomodaremos e seremos mandados para a solitária. Ou para a solidão?
Acho que divaguei e estou lutando num “exército de um homem só”. E já nem sei se estou sozinho ou solitário, ou somente na solidão. Só!
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Cleusa Piovesan – Doutoranda em Letras, Mestra em Letras, com graduação em Letras – Português/Inglês e em Pedagogia; organizadora de dois livros com alunos, e 12 obras de autoria própria; tem participação em mais de 50 antologias e coletâneas; é Acadêmica do Centro de Letras do Paraná, da Academia Brasileira de Letras e Artes Minimalistas, da Associação Brasileira de Poetas Spinaístas, e do Centro de Letras de Francisco Beltrão.
