O parente do papa
(Joceane Priamo)
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Seu Baltazar estava com os olhos brilhando mais que o lustre da igreja e mal podia esperar pelo encontro de família. A notícia tinha chegado como uma bênção: sua sobrinha mais nova, em sua incessante caça genealógica, descobriu que o seu bisavô era primo do Papa João Paulo II! Imagine que benção ser parente de um homem tão importante, ter o sangue de alguém que serviu a Deus com tanta devoção é um privilégio! Dizia ele ao vizinho Valdomiro que ouvia com paciência enquanto pensava sobre a dinâmica familiar em torno do prestígio.
Muitos se orgulham de ostentar laços com figuras importantes, ancestrais renomados ou parentes de sucesso. O parentesco com alguém ilustre torna-se um selo de aprovação social, uma credencial que muitos fazem questão de exibir, como se a excelência do outro pudesse, por osmose, conferir um brilho próprio. Ao mesmo tempo, um paradoxo doloroso se revela em como esses mesmos núcleos familiares, tão ávidos por conexões elevadas, operam um filtro cruel contra seus próprios membros considerados moralmente falhos.
Valdomiro além de parceiro de chimarrão, também era mestre em fazer indagações, esperou Seu Baltazar esfriar um pouco a euforia de se sentir um legítimo relicário da sua linhagem celestial, e, assim que o momento propício surgiu, ele não perdeu a oportunidade…E aí, Seu Baltazar, existe só parente santo na sua família ou esse povo aí esquece de registrar os bandidos também? Imagino que o senhor não deve ter um tio que roubava galinha, né? Nem de um primo pinguço que fazia vexame nos almoços de domingo ou uma avó que foi enganada pelo boto?
Seu Baltazar, sem pestanejar, deu um gole no chimarrão e respondeu com um sorriso de lado: Ora, meu caro! Esses aí, claro, a gente faz questão de esquecer. Eles não trazem luz para a história da família, só servem para dar trabalho! O que importa é o elo com o sagrado! E seguiu, orgulhoso, narrando novas impressões sobre a ascendência papal, enquanto o vizinho apenas ouvia, sabendo que a conversa renderia boas risadas e muitas reflexões.
O sobrenome que antes servia de passaporte para o orgulho ao ser questionado na sua amplitude se torna um fardo, um motivo de vergonha a ser escondido. Valoriza-se o nome quando ele traz status, mas condena-se o indivíduo quando ele representa um desvio moral. Essa prática revela uma superficialidade dolorosa em nossas definições de família e pertencimento, priorizando aparências sobre a complexidade e a lealdade que deveriam transcender falhas e julgamentos.
Seu Baltazar celebrava o prestígio alheio, mas carregava o medo de macular a própria imagem, um paradoxo que expõe a fragilidade de certas conexões que, no fundo, se sustentam mais pelo que os outros pensam do que pelo que a família realmente representa.
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Joceane Priamo nasceu em Francisco Beltrão-PR, em 23 de maio de 1988. É formada em Letras Português e Literatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e Pedagogia pela Faculdade Campos Elíseos (FCE), pós-graduada em Docência no Ensino Superior, Antropologia, Educação Especial e Intelectual.
Em março de 2021, lançou seu primeiro livro, Francisco Beltrão entre Versos e Sonhos. Em 2024 lançou a coleção infantil As aventuras de Chiquinho Beltrão e sua turma. Participa da coordenação da Via Poiesis e como membro do Centro de Letras de Francisco Beltrão, é professora, escritora, poetisa e cronista.
