Os quarenta dias
Clero: 4º Bispo – Dom Edgar Xavier Ertl
No dia 18 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, a Igreja iniciou o tempo da Quaresma. Nestes 40 dias seremos purificados pelas águas do batismo e pelas lágrimas da penitência. A Quaresma é o Tempo do ano litúrgico que vai da Quarta-Feira de Cinzas à Quinta-Feira Santa, cuja duração, simbolicamente, é de quarenta dias. As catequeses da Igreja nos recordam que o caminho quaresmal, isto é, o Batismo – com a sua memória ou preparação –, a Penitência, a escuta assídua da Palavra de Deus e a oração, pretende indicar a referência fundamental para compreender seu valor e significado. No processo de formação deste período de preparação para a Páscoa, a referência ao Batismo e à Penitência foi a chave de interpretação da Quaresma e da sua relação com a vida do cristão e da Igreja. A Igreja recomenda a recuperação dos elementos batismais e insiste no significado pessoal e social do pecado. Ela, por isso, fala de jejum penitencial externo e interno, recuperando uma prática antiga em seu sentido mais genuíno de espera do Ressuscitado.
Com o Concílio Vaticano II, na reforma litúrgica, foi-se especificado a finalidade, a estrutura e a duração desse período: em primeiro lugar, determinou-se que a Quaresmas tem por finalidade preparar a Páscoa, ou seja, conduzir à celebração do Mistério Pascal tanto os que se preparam para se tornar cristãos, os catecúmenos que receberão os Sacramentos da Iniciação Cristã durante a Vigília Pascal, e aqueles que, já cristãos, renovam a sua adesão ao Senhor, mediante a lembrança do Batismo e o compromisso de conversão pela Penitência. Além disso, o período quaresmal está estruturado de forma mais linear para melhor evidenciar o itinerário que a Igreja oferece a cada cristão para que chegue renovado nas celebrações do Mistério Pascal. Ainda, a esmola, o jejum e a oração fazem parte do dia a dia da vida cristã.
Recordando vários “quarenta dias”
A duração fixada em quarentas dias, expressão temporal que, segundo a Tradição bíblica, caracteriza a preparação do homem para o seu encontro com o transcendente, com Deus, por meio de um abandono dos ídolos e da vida pecaminosa, a de uma vida de adesão a Deus e de fidelidade à aliança. Na determinação da duração da Quaresmas, teve um peso significativo a tipologia bíblica dos quarenta dias, isto é, o jejum do Senhor; os quarenta dias do dilúvio universal; os quarenta dias passados por Moisés no Monte Sinai; os quarenta dias durante os quais Golias, o gigante filisteu, enfrentou Israel, até que Davi avançou contra ele, o derrubou e matou; os quarenta dias durante os quais Elias, fortalecido pelo pão cozido debaixo das cinzas e pela água, alcançou o monte de Deus, o Horeb; os quarenta dias em que Jonas pregou penitência aos habitantes de Nínive. A Quaresma é, portanto, o Tempo em que toda a Igreja se recolhe em oração, guiada pela Palavra de Deus, para alcançar a Cristo no seu Mistério de Paixão, Morte e Ressurreição, mediante um assíduo empenho ascético de conversão, tornando-se, assim, escola vital de purificação e iluminação, segundo o ensinamento do Senhor: “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1,15).
A Via-Sacra
Dentre os vários exercícios de piedade com os quais os fiéis veneram a Paixão do Senhor, especialmente durante o período da Quaresma, destaca-se significativamente a Via-Sacra, por ser uma das formas mais arraigadas e praticadas pelo povo de Deus. Ela nasceu para recordar o doloroso caminho percorrido por Jesus na sua vida terrena, desde o momento em que Ele e seus discípulos, “depois de cantar o hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Marcos 14,26), até o momento em que o Senhor foi conduzido ao “lugar chamado Gólgota” (Marcos 15,22), foi crucificado e sepultado em um novo sepulcro escavado na rocha (Marcos 15,46). Uma caminhada penosa, cansativa e extremamente dolorosa. A Via-Sacra nos atualiza estes fatos bíblicos a fim de que nos associemos em nossas caminhas, às vezes, dolorosas, com o Senhor.
Dom Edgar Xavier Ertl – Diocese de Palmas-Francisco Beltrão-Pr
