O dia em que meu marido descobriu que Farm não é farmácia
(Joceane Priamo)
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Tudo começou com a bendita planilha de Excel e a fiel companheira caneta bic, Frederico encarava a fatura do cartão de crédito como quem decifra um pergaminho antigo.
— Amor, a gente precisa rever nossos gastos com remédios! Pensativo e ao mesmo tempo preocupado com a possibilidade de uma doença psicossomática, ele estava prestes a dar uma palestra sobre economia familiar.
Eu, distraída com um Reels de receita de airfryer, apenas murmurei um “Aham”.
— Sério, querida. As crianças estão tomando alguma vitamina especial? Você teve alguma crise de labirintite que eu não vi? Você está enfrentando algum tipo de ansiedade generalizada? Porque a gente gastou R$ 650,00 na FARM só na terça-feira. E no sábado passado teve outra compra de R$ 400,00. Por acaso você está tomando Mounjaro escondido?
Eu olhei para ele, depois olhei para a sacola de chita colorida jogada no sofá, e depois refleti se deveria ou não falar e ao mesmo tempo me questionei se ele estava preparado para ouvir a verdade naquele momento. O olhar do Frederico transbordavam uma preocupação genuína com a saúde da família. Não havendo outra alternativa, só me restou a revelação:
— Frederico, meu amor, a FARM não é farmácia.
Ele parou com a caneta no ar. O silêncio na sala foi digno de final de novela.
— Como não é farmácia? Tá escrito “FARM”. F-A-R-M. É abreviação, todo mundo sabe. O que é então? Uma fazenda? Você comprou verdura orgânicas ou fez um estoque de sucos detox?
— É a loja de roupas, Frederico… Aquela das estampas de tucano, sabe? De florzinha, de caju…
Ele olhou para a fatura. Olhou para mim. Voltou olhar para a fatura.
— Então você quer me dizer que esses seiscentos e cinquenta reais mais quatrocentos não foram gastos em antibióticos, vitaminas, curativos ou estoque de Nestogeno?
— Não. Foi um vestido longo com estampa de banana e uma regata de linho.
O choque foi tão grande que ele quase precisou de uma farmácia de verdade (a de manipular remédio de pressão, no caso).
— Mas é um absurdo! — ele protestou, indignado; com a fúria nos olhos riscou a categoria Saúde/Farmácia da planilha e escreveu, com letras garrafais e uma pitada de drama: “MANIFESTO TROPICAL PSICODÉLICO ”
Minha preocupação agora é com próxima fatura do cartão, ele nem sabe que troquei o celular. Será que quando ele ver Apple na fatura vai achar que o nosso jardim virou uma plantação de macieiras?
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Joceane Priamo nasceu em Francisco Beltrão-PR, em 23 de maio de 1988. É formada em Letras Português e Literatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e Pedagogia pela Faculdade Campos Elíseos (FCE), pós-graduada em Docência no Ensino Superior, Antropologia, Educação Especial e Intelectual.
Em março de 2021, lançou seu primeiro livro, Francisco Beltrão entre Versos e Sonhos. Em 2024 lançou a coleção infantil As aventuras de Chiquinho Beltrão e sua turma. Participa da coordenação da Via Poiesis e como membro do Centro de Letras de Francisco Beltrão, é professora, escritora, poetisa e cronista.
