GeralVia Poiesis

A MAGIA DO OUTONO

(Um conto de Cleusa Piovesan)

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Abril sempre lhe fora um mês, especialmente, agradável, com o mosaico colorido de folhas secas que Kalinda observava da janela de seu escritório. Nem o calor insuportável da estação anterior, que a fazia transpirar mais do que o que era normal, o que a deixava agonizante e lhe tirava o bom humor, nem o frio enregelante do Inverno, que lhe deixava irritadíssima por causa da rinite. O clima do Outono, no Brasil, com aquele friozinho de se aninhar debaixo de um edredom, tomar um café fumegante, lendo um livro ou vendo um filme, era propício à sua saúde.

Às vezes, havia uma companhia debaixo do edredom, para aquecer sua solidão nas noites mais frias, em que o vento assoviava e ela podia ouvir as folhas sendo arrastadas, causando-lhe certa melancolia. Nessas noites, o vazio de seu coração poderia ser preenchido por qualquer homem que lhe oferecesse uma boa conversa, acompanhada de um bom sexo casual. Até o momento, a efervescência das paixões que a assolavam, não permitira que essas companhias casuais se estendessem até o próximo Outono.

O Outono também tinha um pouco de magia em sua vida, e não marcava só o auge de sua estação preferida, com as brisas refrescantes, o encanto da renovação vida proporcionada pela natureza, mas também a renovação de seus amores passageiros. Kalinda era amante da liberdade, e isso não a prendia a nenhum relacionamento duradouro, porque ao tentar prendê-la ou querer um relacionamento mais sério, o parceiro era descartado.

O medo da responsabilidade de dedicar-se a outra pessoa a fazia “sair à francesa” de cada relacionamento, e isso tornou-se um ciclo na vida da bela e atraente mulher de 36 anos, com carreira estável na advocacia, e uma vida financeira que lhe possibilitava algumas viagens, e prazeres que são para poucos. Além do mais, o trabalho a envolvia e o tempo que lhe restava de folga Kalinda aproveitava para viajar, um de seus “hobbies” favoritos, o que também lhe proporcionava colecionar alguns amantes casuais.

Nenhum de seus romances sobreviveu até maio do ano seguinte, o tão famoso mês das noivas, das mães, das datas dos casamentos felizes e duradouros. Carpe diem era o lema dessa advogada com ares de mulher moderna, independente. Se o romance não terminasse antes, abril era o mês derradeiro, sem o “felizes para sempre”, apenas o “eterno enquanto dure”, tão propagado por Vinícius de Moraes. E o ciclo recomeçava, com novas aventuras amorosas à vista… até que Kalinda conheceu Roger.

Roger não era um tipo especialmente bonito, mas tinha uns olhos azuis e um corpo atlético que lhe chamaram a atenção desde o momento em que o vira em uma convenção sobre misoginia. E, ao ouvir seu pronunciamento sobre o tema, o encanto aumentou. Roger demonstrara muita sensibilidade ao se referir aos direitos das mulheres, em favor da igualdade em questões de identidade de gênero. Kalinda não era uma feminista, mas, como advogada, acostumada a atender casos de violência doméstica, quem defendesse essa causa já ganhava uns pontos em sua simpatia.

Ao encerrarem-se os pronunciamentos, Roger fora cumprimentar Kalinda e não tardou um convite para jantar, para discutirem questões pertinentes à causa que ambos defendiam, claro! Era perceptível a atração entre eles, tanto no campo profissional, quanto no pessoal, e flertavam abertamente, sem disfarçar seus sentimentos.

Kalinda já não esperava muito desses encontros, mas estava ansiosa por conhecer Roger mais intimamente. Já estava se maquiando para sair quando se deu conta de que era 30 de abril, o último dia de seu mês mágico. Roger seria mais uma de suas aventuras iniciadas no Outono? Ou? Em seu íntimo, sonhava com o dia em que seu “príncipe encantado” quebrasse a magia do Outono e durasse mais que uma troca anual de estação.

O jantar transcorreu descontraído, e ambos tinham mais que uma causa jurídica em comum. Roger era um homem inteligente e educado, um gentleman, e deixou Kalinda bem à vontade para conduzir a conversa. Ela sentiu-se um pouco intimidada, porque nem sempre a opinião de uma mulher era importante. E Kalinda já sentira a discriminação até mesmo no ambiente de trabalho, apenas por ser mulher, mas com Roger estava à vontade para expressar suas opiniões e percebeu que ele a respeitava.

Roger também tinha um sorriso espontâneo que a fazia imaginar-se em seus braços, aninhando-se neles e beijando aquela boca que lhe despertava o desejo, muito além de um beijo. Ele a observava, intrigado com a vivacidade daquela mulher, de quem já ouvira comentários no escritório, mas que parecia sem defesas nesse momento. A fama de “femme fatale” que lhe atribuíam não parecia condizer com a mulher meiga e delicada à sua frente. Teria de conferir pessoalmente, pensou, pois sabia que mulheres que se fazem de forte o tempo todo escondem suas carências.

Kalinda, ao perceber como Roger a perscrutava, deu-se conta de que a presa era ela, pois ele a penetrava com aquele olhar que a tragava como se a arrastasse às profundezas do mar, e ela estava consciente de que estava atirando-se ao predador, tão espontaneamente como uma mosca atraída pela teia da aranha.

E o jogo de sedução, conduzido por Roger, chegou ao fim quando ele a convidou para conhecer seu apartamento. Ele havia feito mudança há dois meses e disse a Kalinda que gostaria de “um toque feminino” na decoração e que confiava no bom gosto dela. Com um aceno pediu a conta e entre sorrisos, ele a conduziu ao seu território, pois sabia que uma mulher como ela teria de estar indefesa para deixar-se conquistar.

Ao chegarem ao apartamento de Roger, mal ele fechou a porta, enlaçou-a pela cintura e deu-lhe um beijo cinematográfico. Kalinda sentiu a força máscula daquele homem, que sabia seduzir uma mulher. Não era hora de ela ter ataques de puritanismo, pois ansiara por isso a noite toda. Então, deixou-se conduzir por Roger pelos caminhos do prazer, que ela também já experimentara, mas não como passageira.

Era uma nova aventura começando, com os augúrios do último dia de abril e a energia do primeiro dia de maio. Restava apenas deixar o destino seguir seu curso para saber qual seria o mês que regeria essa deliciosa aventura. Kalinda ainda ouviu o sopro dos ventos de Outono, antes que Roger a deitasse no tapete e ela pudesse ver o céu estrelado, pela claraboia da sala de estar, sentindo o cheiro que emanava do corpo desse homem misterioso, que a fazia sonhar com a felicidade eterna…

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(Conto publicado, em 2019, na Antologia Lusófona Brisas de Outono, Porto/Portugal).

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