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EDUCAÇÃO, TRABALHO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

*Prof. Dr. Valmor Bolan

No discurso de abertura do leilão do 5G, na sede da ANATEL, em Brasília, em 4 de novembro de 2021, o ministro das Comunicações Fábio Faria foi entusiasta, afirmando: “Vamos mostrar ao mundo que o Brasil está agora  na economia digital”, destacando ainda o futuro que espera para as escolas, com mais investimentos na Ciência da Computação e na Inteligência Artificial, etc., acrescentando: “estão indo para esse caminho. E a gente não podia deixar o Brasil de fora. (…)  Nós temos que capacitar nossos jovens  para essa geração 5G”. O ministro espera assim preparar as novas gerações para o mercado de trabalho, que exigirá conhecimento especializado nessas áreas. Eric Aislan Antonelo é cientista da computação com mestrado em Engenharia de Sistemas de Computação, na linha de pesquisa “Sistemas Inteligentes”, pela Universidade de Halmstad, na Suécia, e doutorado em Ciência da Computação pela Universidade de Ghent, na Bélgica. Para ele, “no mundo do trabalho, poderá ser critério de desempate, transferindo à escola o dever de ensinar o básico de ciência da computação a fim de garantir a empregabilidade”. 

Diante do impacto da Inteligência Artificial no mundo do trabalho, Eric Aislan Antonelo, em entrevista a Tácia Rocha, explica que é “imprescindível   que   governos  tomem  a iniciativa para criar políticas sociais para absorver o impacto causado pela IA no mercado de   trabalho   possivelmente  através do treinamento  de  pessoas  para  novas  funções; imposto sobre produtos altamente automatizados. Por esse impacto que a IA vai causar, ela   já   faz   parte   da   quarta   revolução   industrial   juntamente   com   nanotecnologias, neurotecnologias, robôs, drones, sistemas de armazenamento de energia, etc.” Defende, portanto, que os profissionais sejam capacitados para saberem lidar com as demandas da sociedade 4.0, em curso com uma velocidade muito maior do que imaginávamos até há pouco tempo. Aqueles que estiverem mais capacitados, terão melhores condições de obter colocação nos novos postos de trabalho que irão surgir, em decorrência das novas demandas. Os especialistas dizem que poderá haver mais desemprego, tendo em vista que nem todos conseguirão fazer essa adaptação, mas há outros estudiosos que apostam no surgimento de novas profissões, que permitirão a absorção da mão-de-obra em outras atividades. Mas a maioria teme que a Inteligência Artificial venha substituir postos de trabalho mais qualificados, e há muito ceticismo ainda em relação a isso. Um dos setores da sociedade que mais sofrerá impacto dessas novas mudanças certamente será o da Educação. 

Gilson Pereira dos Santos Júnior, ao resenhar um livro de Rui Fava: “Trabalho, educação e inteligência artificial: a era do indivíduo versátil” (2018), explica que “ao analisar a ‘tecnologia, automação e educação’ e demonstrar como está a ‘educação no mundo contemporâneo’, o autor propõe uma abordagem de ‘aprendizagem ativa e experimental’, no intuito de sair do repetitivo e preditivo, para uma educação inovadora, inspiradora e constantemente evolutiva, gerando o ‘currículo por competências’. O autor evidencia que cooperação, resiliência, ética, liderança, são as ‘competências atitudinais na educação 3.0’, uma vez que somente o indivíduo que souber fazer, ser, conviver e querer agir alcançará a trabalhabilidade, a partir da inteligência integral. O autor tenta ainda responder ao questionamento ‘como será a educação superior na próxima década?’, com a geração digital, que aprendeu a prosperar sozinha e estudar de forma autônoma, mostrando, por meio do PDCA  Acadêmico, que os cursos não terão matrizes curriculares com disciplinas sequenciadas, o currículo será por competência, as ofertas serão híbridas (blended learning), os discentes não terão limite de tempo para integralização dos fundamentos gerais, de área e de conhecimentos específicos e a avaliação será formativa e centrada no aluno. O docente terá o perfil de conteudistas (autores) ou de orientador (Just-in-Time Teaching)? O autor ressalta, ainda, que ‘será um enorme desafio educar em um mundo que está metamorfoseando arquétipos, modelos mentais e paradigmas. Ensinar e aprender, sem se submeter à coação de qualquer modelo acadêmico, sem impor conceitos prefixados, proporcionar liberdade de discernir, de escolher, de decidir e de aprender’ (p.182)”. O fato é que a educação do século 21 permanece ainda um desafio cheio de interrogações, mas que irá desafiar todo o profissional a buscar novos meios de atuação, novas habilidades e nova disposição de constante aprendizado. 

Valmor Bolan é Doutor em Sociologia. Professor da Unisa. Ex-reitor e Dirigente (hoje membro honorário) do Conselho de Reitores das  Universidades Brasileiras. Pós-graduado (em Gestão Universitária pela OUI-Organização Universitária Interamericana) com sede em Montreal-Canadá.