Entre a manteiga e o preconceito: o pão merece um julgamento mais justo, diz nutróloga
O Dia Mundial da Alimentação, lembrado em 16 de outubro, foi instituído pela FAO, a agência da ONU para alimentação e agricultura.
Poucos alimentos carregam tanta fama negativa quanto o pãozinho de todo dia. Ele já foi acusado de engordar, inflamar, inchar e sabotar dietas. Entre uma tendência e outra, o pão vai sendo cortado do café da manhã, trocado por versões “fit” ou tratado como uma escorregada que exige compensação no resto do dia.
Mas, para a nutróloga Fabiana Roloff, docente do curso de Medicina da Afya Centro Universitário de Pato Branco, a pergunta está mal formulada.

“O pão não é o vilão da história. Quando a gente escolhe um único alimento para culpar, deixa de olhar para o que realmente importa: o conjunto da alimentação, a rotina e o modo como a pessoa se relaciona com a comida”, afirma a professora Fabiana.
A data não poderia ser mais apropriada para a conversa. O Dia Mundial da Alimentação, lembrado em 16 de outubro, foi instituído pela FAO, a agência da ONU para alimentação e agricultura, e costuma ser um convite a refletir não só sobre acesso a alimentos, mas sobre a qualidade do que chega ao prato.
Os carboidratos, por exemplo, são a principal fonte de energia do organismo e o combustível preferencial do cérebro. Estão presentes em frutas, grãos, raízes, tubérculos e leguminosas, além, claro, do pão. Ainda assim, nas últimas décadas, o nutriente virou sinônimo de problema em dietas da moda.
“Cortar carboidrato por completo raramente é a solução. O que muda o resultado é a qualidade da fonte e a quantidade que cabe na rotina de cada pessoa, considerando idade, nível de atividade física, condições de saúde e objetivos”, explica a nutróloga.
Segundo ela, tratar o nutriente como bloco único é o primeiro erro. Uma batata cozida, uma porção de feijão com arroz, uma fruta e um doce industrial são todos “carboidratos”, mas não se comportam da mesma forma no organismo, nem entregam os mesmos nutrientes.
Dois pães, duas histórias
É aqui que a conversa deixa de ser sobre o pão e passa a ser sobre o que existe dentro dele. Um pão feito com poucos ingredientes, farinha, água, sal e fermento, de preferência com grãos integrais e ricos em fibras, não têm o mesmo efeito de um produto com lista longa de aditivos, açúcar e gorduras adicionados.
Essa diferença é o centro da classificação adotada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, que organiza os alimentos pelo grau de processamento e não apenas por nutrientes. De um lado, estão os alimentos in natura e minimamente processados. De outro, os ultraprocessados: formulações industriais, em geral muito palatáveis, fáceis de consumir em excesso e pobres em nutrientes.
“Olhar o rótulo e perguntar ‘o que é isso, de verdade?’ vale mais do que contar se o alimento tem glúten ou carboidrato. Quanto mais ingredientes que a gente não reconhece como comida, mais o produto se afasta de uma alimentação de qualidade”, orienta a professora Fabiana.
Um pão no café da manhã, acompanhado de ovo, fruta e uma fonte de proteína, é bem diferente do mesmo pão comido às pressas, no meio da tarde, sem mais nada. A combinação com fibras e proteínas, por exemplo, tende a deixar a refeição mais saciante e a digestão mais gradual. Horário, quantidade, fome, rotina e até o contexto emocional também entram na conta.
“Ninguém se alimenta de nutrientes isolados. A gente come refeições, em situações da vida real, com família, trabalho, correria e prazer. É esse conjunto que precisa ser avaliado, e não um alimento sozinho, fora de contexto”, destaca a nutróloga.
Para Fabiana, esse olhar mais amplo também ajuda a desfazer a ideia de que existe uma escolha “perfeita” para todos. O que funciona para um atleta, para uma pessoa com diabetes e para uma criança em fase de crescimento pode ser diferente, e é justamente por isso que orientações generalistas e regras absolutas costumam falhar.
Proibir é o caminho mais curto para a culpa
A lógica do “alimento proibido” cobra um preço que vai além do prato. Restrições rígidas tendem a gerar culpa, compulsão e o conhecido ciclo do “começo na segunda”, que dificilmente se sustenta no longo prazo.
“Quando tudo vira proibido, a comida deixa de ser nutrição e passa a ser fonte de ansiedade. E, muitas vezes, a pessoa que se restringe demais acaba comendo pior, porque chega ao fim do dia sem controle. O objetivo é ter flexibilidade com responsabilidade”, alerta Fabiana.
Ela defende que a relação saudável com a comida inclui também o prazer e a convivência. Um pão quentinho na mesa da família, um lanche com os amigos ou um café da tarde fazem parte da vida, e não precisam vir acompanhados de remorso.
O que levar para a mesa neste 16 de outubro
Mais do que eleger heróis e vilões, a mensagem para o Dia Mundial da Alimentação é simples e cabe em poucos movimentos: priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, observar as porções, variar o cardápio, ler rótulos com atenção e respeitar o contexto de cada pessoa. Em caso de dúvidas ou condições específicas de saúde, o acompanhamento com profissionais qualificados é o caminho mais seguro.
E, sim, o pão pode continuar na mesa.
Fonte: Bem Paraná

