O Presente que se Perdeu
(Joceane Priamo)
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Lá estavam eles. Cinquenta pequenos corações batendo forte sob o uniforme branco e azul. Ensaiaram por semanas, aprenderam a coreografia e decoraram uma canção que falava de um amor que nem eles mesmos, em suas ternas inocências, sabiam dimensionar. Como professora e cúmplice daquele momento , eu estava animada e cheia de expectativas. O sinal foi dado e a música começou.
Eu esperava o impacto. Aquele momento em que o olhar da criança encontra o olhar da mãe e um canal invisível de afeto se estabelece. Mas, quando o balanço dos corpos começaram o que vimos não foram rostos, e sim, uma muralha de telas. Houve um movimento sincronizado entre as homenageadas. Antes mesmo do primeiro gesto, cem braços se ergueram e o que deveria ser um mar de sorrisos e lágrimas contidas, tornou-se um globo de luzes.
As mães — as mesmas que passaram noites em claro e que dariam a vida por aqueles pequenos — estavam ali, mas não estavam. Estavam ocupadas demais garantindo que o ângulo fosse o melhor, que o foco estivesse nítido, que a memória digital fosse preservada, enquanto a memória viva se esvaía entre os dedos.
As crianças procuravam o brilho nos olhos das mães para se sentirem seguras, mas seus rostos estavam ocultos atrás dos celulares. Elas não viram os sorrisos tímidos e trêmulos da primeira apresentação de seus filhos, mas o registro para o Instagram foi garantido.
Vivemos uma era estranha onde a validação da experiência parece depender da sua captura. Se não foi gravado, aconteceu? Para aquelas mães, o vídeo no grupo da família ou o story na rede social parecia mais urgente do que o calafrio de ver o crescimento do filho em tempo real. Garantimos o arquivo para o futuro, mas sacrificamos o presente.
Ao final, os celulares baixaram. Os aplausos surgiram. As mães correram para abraçar seus pequenos. Enquanto eu passava entre elas, ouvi uma dizer: “Ficou lindo o vídeo, meu amor! Vou te mostrar”. Naquela manhã, as crianças deram um show de pureza. E os adultos? Deram um show de virtualidade. Saí da escola pensando que, talvez, o melhor presente de Dia das Mães não fosse um cartão de coração ou uma canção ensaiada, mas sim cinco minutos de olhos nos olhos, sem nenhum retângulo de luz no caminho.
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Joceane Priamo nasceu em Francisco Beltrão-PR, em 23 de maio de 1988. É formada em Letras Português e Literatura pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) e Pedagogia pela Faculdade Campos Elíseos (FCE), pós-graduada em Docência no Ensino Superior, Antropologia, Educação Especial e Intelectual.
Em março de 2021, lançou seu primeiro livro, Francisco Beltrão entre Versos e Sonhos. Em 2024 lançou a coleção infantil As aventuras de Chiquinho Beltrão e sua turma. Participa da coordenação da Via Poiesis e como membro do Centro de Letras de Francisco Beltrão, é professora, escritora, poetisa e cronista.
