Por que alguns brasileiros têm dificuldade de se adaptar a outros países?
Novo mapa mundi aprovado pela ONU (Foto: Reprodução/equal-earth.com)
Mudar de país exige mais do que atravessar uma fronteira. Exige compreender que a sociedade de destino possui regras, hábitos, referências culturais e formas de convivência construídas antes da chegada do imigrante. Para alguns brasileiros, a dificuldade de aceitar essa realidade pode tornar a adaptação mais difícil.

Essa é uma das hipóteses levantadas pelo Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, pesquisador em neurociências e especialista em comportamento humano, a partir do acompanhamento de brasileiros residentes nos Estados Unidos, Portugal e Espanha.
A observação envolveu, em média, dez famílias brasileiras em cada um dos três países, aproximadamente 30 núcleos familiares. O pesquisador utilizou o grupo para mapear padrões comportamentais relacionados à experiência migratória.
O próprio recorte exige cautela. A amostra é pequena, não representa a população brasileira residente no exterior e não permite afirmar que determinado comportamento seja característico dos brasileiros como grupo. O levantamento tem caráter exploratório e serve para identificar hipóteses que precisam de estudos maiores e metodologicamente controlados.
Problema começa quando mudar não significa aceitar a mudança
Segundo Fabiano de Abreu, um dos comportamentos identificados em parte das famílias acompanhadas foi a tentativa de manter no país de destino as mesmas expectativas sociais e culturais existentes no Brasil.
A pessoa muda de território, mas espera que o novo ambiente responda às suas próprias referências. Quando costumes, regras ou formas de relacionamento são diferentes, a reação pode ser de resistência em vez de adaptação.
O problema não está em preservar a própria identidade cultural. Um imigrante não precisa abandonar a sua origem para integrar outra sociedade. A dificuldade surge quando preservar a identidade passa a significar rejeitar as normas de convivência do país que o recebeu.
Fabiano relaciona parte desse comportamento a traços de egocentrismo e, em determinados casos, características narcisistas. Isso não significa diagnosticar transtorno de personalidade narcisista. Narcisismo clínico exige avaliação profissional e critérios específicos. A referência, neste caso, diz respeito a padrões comportamentais como necessidade excessiva de reconhecimento, dificuldade de aceitar limites externos e tendência a interpretar frustrações como responsabilidade do outro.
A expectativa de que o país se adapte ao imigrante
Algumas pessoas deixam o Brasil, mas chegam a outro país esperando que a sociedade local se adapte às suas próprias vontades.
Em vez de compreender a cultura, respeitar hábitos e reconhecer códigos sociais já existentes, tentam reproduzir o próprio modelo de vida como se o novo país tivesse obrigação de acomodá-lo integralmente.
Essa expectativa pode aparecer também na forma como o indivíduo entende pertencimento.
Ele espera aceitação, reconhecimento e direitos, mas nem sempre considera que integração envolve reciprocidade. Viver numa sociedade pressupõe conhecer regras, respeitar limites, participar da vida coletiva e compreender uma cultura que não foi construída a partir da experiência individual de quem acabou de chegar.
Direitos legais não dependem de simpatia cultural e devem ser respeitados conforme a legislação de cada país. A integração social, no entanto, envolve algo diferente. Ela depende também da relação que o próprio imigrante estabelece com o ambiente onde escolheu viver.
Quando a frustração passa a ser culpa do país
A dificuldade aparece com maior nitidez quando as expectativas não são correspondidas.
A pessoa esperava determinada receção, determinado padrão de relacionamento ou determinada facilidade de inserção. A realidade apresenta limites. Surge a frustração.
Segundo a interpretação comportamental proposta por Fabiano de Abreu, alguns indivíduos têm dificuldade de considerar a própria participação nesse conflito. Torna-se psicologicamente mais confortável atribuir a experiência negativa ao país, à população local ou à sociedade do que rever expectativas e comportamentos.
A pessoa sente-se dececionada, mas não considera que possa estar a produzir parte da própria decepção.
Esse mecanismo não significa que todas as críticas feitas por imigrantes sejam injustas. Xenofobia, discriminação, precariedade laboral e dificuldades burocráticas existem e precisam ser analisadas separadamente. O erro seria utilizar uma explicação comportamental para negar problemas reais enfrentados por estrangeiros.
O movimento contrário também pode acontecer. Nem toda experiência negativa vivida no exterior decorre de preconceito ou rejeição da sociedade de destino.
Humildade cultural participa da adaptação do brasileiro
Fabiano de Abreu aponta a humildade como uma variável comportamental que merece atenção no processo migratório.
Reconhecer que se chegou a uma sociedade diferente exige disposição para observar antes de julgar. Há normas formais, mas também existem códigos informais de convivência, comunicação, pontualidade, trabalho, vizinhança, relações familiares e vida pública.
Adaptar-se não significa concordar com tudo. Significa compreender primeiro.
Uma pessoa pode discordar de características do país onde vive e continuar integrada a ele. O conflito aparece quando qualquer diferença é interpretada como uma afronta pessoal ou quando existe a expectativa de que milhões de pessoas alterem as próprias referências para acomodar a visão de quem chegou recentemente.
Perfil do brasileiro
O pesquisador faz uma ressalva necessária: não se trata de afirmar que brasileiros sejam narcisistas, egocêntricos ou incapazes de adaptação.
Milhões de brasileiros vivem fora do país, constroem relações, trabalham, criam empresas, formam famílias e integram-se às sociedades locais em diferentes níveis.
O levantamento realizado com famílias nos Estados Unidos, Portugal e Espanha não possui dimensão suficiente para estimar a frequência desse comportamento entre brasileiros no exterior.
O que a observação permite é formular uma pergunta comportamental: quando um processo migratório fracassa, quanto desse fracasso está exclusivamente no ambiente e quanto pode estar relacionado às expectativas, à personalidade e à capacidade de adaptação do próprio indivíduo?
Essa pergunta muda o foco.
Em determinados casos, sair de um país pode ser relativamente simples. Aceitar que o novo país não existe para reproduzir aquele que ficou para trás pode ser a parte mais difícil.

