Coluna PET

IDOLATRIA E FANATISMO A INCONSCIENTE DERROCADA DO INDIVÍDUO

“Do fanatismo à barbárie, não há mais do que um passo”, já dizia o filósofo francês, Diderot.

Fanatismo é o sentimento de cuidado, de fervor excessivo, que pode levar à intolerância; é a excessiva admiração – cega e intensa – demonstrada por alguém a algo ou por ourto alguém, que pode ser uma religião ou doutrina, um polítíco, um sistema, um artista, uma figura pública… Aquele que se mostra impossibilitado de ouvir argumentos diferentes do seu, em discordância com seu objeto de idolatria, pode ser considerado, hipoteticamente, fanático.

Segundo a teoria psicanalista de Freud, o inconsciente do ser humano é divido em três partes: id, superego e ego; onde id é o aspecto instintivo e representa o desejo de necessidades primárias e a satisfação de tê-las. O superego é o aspecto moral da personalidade. Já o ego – o “eu” – caracteriza a real personalidade de cada indivíduo. O ego mantém a harmonia entre o id e o superego, impedindo o indivíduo de agir baseado apenas em seus impulsos primitivos, traçando um equilíbrio com os padrões morais e idealistas, criados pelo superego. Na perspectiva Freudiana, um sujeito fanático é aquele que entrega o seu superego, abandona seus princípios morais, à benesse de uma outra pessoa, objeto ou causa idealizada.

O fanatismo é – geralmente – impulsionado por influência de um grupo – uma “multidão” – que atenda aos instintos básicos do indivíduo. De acordo ao psicólogo social e criminologista austríaco, Hans Toch,“em uma multidão, o senso de universalidade de comportamento e o enfraquecimento de responsabilidade individual influenciam fortemente o comportamento coletivo emergente à medida que o número de pessoas no grupo cresce”.

Lorelei Kelly, cientista política, especialista em democracia inclusiva, da Universidade de Georgetown (EUA), sugere que as mídias sociais são uma ameaça para a democracia, a personalidade ou moral individual, pois, por meio de mecanismos automatizados de difusão de desinformação, facilita a manipulação de indivíduos vulneráveis. Nas redes sociais, ideias manipulativas, criteriosamente formuladas, acabam encontrando “eco” entre outros usuário e se retroalimentando, movidas por uma obsessão descontrolada.

Em 1895, em seu livro “Psicologia das Multidões”, Gustave Le Bon explanou sua teoria do contágio, afirmando que as multidões exercem uma influência hipnótica sobre determinadas pessoas que, protegidas pela condição de indivíduos anônimos, abandonam suas convicções individuais e cedem às emoções contagiosas da massa. Assim, a multidão assume vida própria, agitando emoções e conduzindo pessoas para irracionalidade. Não pertencer ao grupo, estar em desacordo às vontades e ideais deste, é visto como ameaça. Uma multidão é um rebanho servil que existe pela presença e vontade de um “lider” que não necessariamente é o “objeto” do fanatismo. De forma mais prática, pode-se dizer que as interações sociais se fortalecem quando indivíduos passam por momentos difíceis, desesperançosos, traumáticos ou por frustrações, de maneira que suas ações e pensamentos são diretamente afetados por um grupo, e assim, estes indivíduos passam a refletir coletivamente o mesmo comportamento, expressando instintivamente, irracionalmente ou inconscientemente as mesmas ideias. “Nas grandes multidões, acumula-se a estupidez em vez da inteligência. Na mentalidade coletiva, as aptidões intelectuais dos indivíduos e consequentemente suas personalidades se enfraquecem”, disse Le Bon.

Freud, em análise desta teoria do comportamento de massas, afirma que “quando uma pessoa se torna membro de uma multidão, sua mente inconsciente é liberta. Isso acontece porque as restrições do superego [o núcleo moral da consciência] são relaxadas, [enfraquecidas]. O indivíduo, então, tende a seguir o líder carismático. O controle do ego sobre os impulsos produzidos pelo id diminui e o instinto, normalmente confinado em sua personalidade, vêm à tona. Deste modo, a multidão fornece uma libertação momentânea de desejos reprimidos”. Obviamente, nem toda multidão expressa o mesmo comportamento inconsciente e servil.

Este tipo de comportamento é um mecanismo de enfrentamento às dificuldades do momento, que pode trazer uma falsa sensação de razão, de certeza, de sensatez e prudência, mas que pode levar o indivíduo ao desequilíbrio emocional, à volubilidade, e que podemos perceber facilmente nas redes sociais. Um bom exemplo vivemos agora, com todos estes aspectos políticos, mesmo frente a um sério problema, cujos protagonistas conseguiram enxergar as frustrações de um grupo, o desejo de encontrar uma salvação, um amparo… Criou-se uma (falsa) razão para uma lógica quimérica, uma utopia inatingível, mas facilmente alimentada por falsas esperanças. É fácil perceber o envolvimento inconsciente de um indivíduo às vontades impulsionadoras de um grupo, quando há uma persistente defesa do “ídolo escolhido” e este se torna inatingível. “Não erra… e se errou, foi sem querer”. “Se você não o apoia é você que está errado e não presta”. O indivíduo atinguido não tem dúvida sobre o caráter do ídolo, mesmo sem realmente conhecê-lo, e o defende arduamente, colocando-se como “escudo” frente às ameças racionais que infringem a sua falsa lógica.

O psiquiatra brasileiro Luiz H. N. Da Silva estudou o comportamento político de massa nas redes sociais e alega que o fanatismo pode ser enquadrado na categoria de transtorno psicótico e, particularmente, um “transtorno delirante persistente”. E há lógica científica nesta alegação, pois este comportamento é desencadeado pela dopamina, um neurotransmissor responsável pela manisfestação das emoções e que se ativa mediante a sensação de prazer. Quanto mais inesperada é esta “recompensa neurológica”, maior a sua ativação. Especialistas afirmam – e pelo que vivemos nos últimos 5 anos, torna-se fácil perceber – que “é mais fácil que um fanático mude o foco do seu fanatismo do que passe a adotar um comportamento tolerante”. Esta estrutura mental adquirida, estas distorções cognitivas, faz com que o fanático tenda a dividir a sociedade entre o que pensa, o que aceita como a “verdade absoluta”, e o inimigo, colocando este em um único e ilógico grupo (direita x esquerda). O fanatismo é uma “muleta”, um escudo de proteção à insegurança e ao medo do julgamento dos demais e, assim, enclausura-se em convicções absolutistas e inquestionáveis, para não ter que enfrentar a realidade e sua própria fragilidade.

O fanático tem uma visão maniqueísta sobre sua causa, cultivando a dicotomia bem x mal, onde o mal reside naqueles que o contrariam, levando-o a adotar condutas irracionais para impor seu ponto de vista. A autointitulação – por exemplo: “gente-de-bem” –, acompanhada da rotulação única de todos que o contrariam, é característico do fanatismo.

“A ciência sem fé é loucura, E a fé sem ciência é fanatismo.” (Martinho Lutero)