Geral

O ano da ponderação

            Nada influencia mais um ano eleitoral do que o contexto que está a sua volta. E o contexto, como tudo na vida, muda completamente a cada nova volta que o mundo dá. Nas eleições de 1986, após aquele calvário econômico da inflação lá no alto, das incertezas, da mesma coisa valer muito de manhã e nada de tarde, surgiu o plano que finalmente salvaria a pátria: o plano cruzado. A revista Veja, que na época pré-internet realmente influenciava muita gente, trouxe uma capa lendária de que aquilo seria a “revolução na economia”. O Brasil inteiro abraçou a ideia. E quem era o presidente da época? Sim, José Sarney – aquele que era vice do Tancredo Neves, misteriosamente falecido pouco antes de assumir a faixa presidencial. Sarney alcançou uma popularidade altíssima naquele momento. Por consequência, seu partido – o PMDB – também ficou prestigiado. Logo após o lançamento do plano cruzado, vieram as eleições – e o PMDB elegeu 22 dos 23 governadores da época. Apenas Sergipe ficou com um governador de outro partido. O contexto do momento – a salvação em forma de plano cruzado – praticamente definiu as eleições em todo o Brasil. Era a onda da segurança econômica – que, no fim das contas, nem durou tanto assim.

            Outro exemplo, este já muito mais fresco: nas últimas eleições que vivemos, um candidato tranquilo e desarmamentista jamais seria eleito. Naquela altura, vivíamos a onda dos extremos, do militarismo e, claro, da luta contra a corrupção e dos “mesmos de sempre” – muito simbolizadas, também, pelo antipetismo, que talvez tenha sido o fator mais decisivo, na minha opinião. O pessoal brincava que segurança, vigia ou até escoteiro já sairia na frente na disputa por qualquer cargo. Ou, quem fizesse “sinal de arminha” com uma mão, garantia 50% dos votos. E se fizesse com as duas mãos, estava eleito. Brincadeira muito verídica… Santa Catarina elegeu um bombeiro – extremamente desconhecido do grande público e de um partido pequeno – para governar o estado. Sim, o contexto do momento varreu pelo Brasil todo quem nele não se encaixava. Grandes caciques ficaram de fora e os novatos, sem dinheiro e sem estrutura, tomaram suas vagas.

            Por tudo que esses fatos nos mostram claramente que sempre bato na tecla da importância do contexto em toda e qualquer eleição. É uma onda que precisa ser surfada inteligentemente por quem quer se eleger. E quem teima em remar contra a maré acaba – literalmente – sendo derrubado por essa onda.

E é a partir disso que muitas pessoas me perguntam: e agora? Qual será o contexto para as eleições deste ano? Bom, bola de cristal ninguém tem. Mas podemos nos basear nos estudos e nas tendências. Analisando o cenário, os últimos fatos e até mesmo tendo certa visão antropológica do comportamento da maior parte da sociedade atualmente, é possível ter uma luz: deve ser o ano da ponderação. Por incrível que pareça, alguns dos últimos acontecimentos andaram “assustando” as pessoas, principalmente os atos mais radicais. Portanto, os candidatos que mantiverem a linha ponderada, firme, confiante e tranquila ao mesmo tempo, tendem a conquistar uma importante fatia da população que sofre com certa falta de segurança. São aqueles que pouco se manifestam, mas também votam. É nesses que mora o perigo. Discursos mais propositivos e atitudes mais pragmáticas irão passar tranquilidade e confiança. E tudo isso ainda deve se somar a outro importantíssimo elemento que já vem acontecendo a algum tempo: o da renovação. Mas não no quesito “idade” ou talvez nem no tempo de vida pública, mas sim nas ideias e nas ações. Assim, todo mundo pode buscar o seu espaço e se alinhar com o cenário que irá atuar, aproveitando as ondas do contexto – que cada vez mais se tornam verdadeiros tsunamis eleitorais.